“O SOFTWARE NÃO SUBSTITUI O CONHECIMENTO DO PROFISSIONAL”
A Ortodontia está a mudar com a digitalização, os alinhadores e novas ferramentas de planeamento. A Prof.ª Doutora Selma Pascoal, presidente da Comissão Organizadora do XXXII Congresso da SPO, defende que a inovação não pode substituir o critério clínico.
A tecnologia entrou em praticamente todas as etapas do tratamento ortodôntico, do diagnóstico e planeamento à produção de dispositivos e monitorização do paciente. Mas a multiplicação de ferramentas digitais traz também novas exigências para os profissionais. Saber distinguir uma possibilidade tecnológica de uma verdadeira vantagem clínica é, para Selma Pascoal, um dos desafios que marcam atualmente a Ortodontia.
É também a reflexão que atravessa o XXXII Congresso da Sociedade Portuguesa de Ortodontia (SPO), que decorre de 22 a 24 de outubro, em Vila Nova de Gaia, sob o lema “Novos Caminhos, a Mesma Essência”. Em entrevista, a presidente da Comissão Organizadora antecipa um programa que cruza biomecânica, alinhadores, fluxos digitais e casos clínicos, sem perder de vista os fundamentos científicos e biológicos da especialidade.
O tema desta edição é “Novos Caminhos, a Mesma Essência”. O que inspirou esta escolha?
A Ortodontia atravessa um período de profunda transformação, impulsionado pela evolução tecnológica, pela digitalização e por novas abordagens de diagnóstico e tratamento. Contudo, independentemente dos instrumentos que utilizamos, a essência da nossa profissão permanece inalterada: o critério, o rigor científico, o sentido clínico, a ética e o compromisso com cada paciente.
O tema “Novos Caminhos, a Mesma Essência” nasceu precisamente desta reflexão. Pretendemos olhar para o futuro e acompanhar a inovação, sem perder de vista os princípios fundamentais que sustentam uma prática ortodôntica de excelência.
Quais são os principais objetivos do XXXII Congresso da SPO?
O principal objetivo é proporcionar um espaço de atualização profissional, reflexão e partilha, capaz de aproximar a evidência científica da prática clínica quotidiana.
Queremos proporcionar aos participantes conhecimentos relevantes e aplicáveis, promover a discussão de diferentes abordagens terapêuticas e estimular uma análise crítica sobre os novos caminhos da Ortodontia. Pretendemos igualmente reforçar a proximidade entre profissionais, académicos, investigadores, jovens médicos dentistas, estudantes e parceiros da indústria.
Mais do que transmitir conhecimento, queremos que o congresso suscite perguntas, inspire novas perspetivas e contribua para uma prática clínica cada vez mais diferenciada e consciente.
Que novidades poderão os participantes encontrar nesta edição?
Esta edição foi pensada para proporcionar uma experiência científica dinâmica, próxima e participativa. Para além das conferências, teremos momentos destinados à apresentação e discussão de casos clínicos, nos quais será possível analisar diferentes estratégias e decisões terapêuticas.
Um dos formatos que pretendemos valorizar é a “Maratona de Casos Clínicos”, concebida para promover apresentações objetivas, dinâmicas e centradas na resolução de situações concretas. Teremos também uma “Sessão Especial”, que permitirá aprofundar uma temática específica num contexto mais intensivo.
A própria escolha do Baron’s Hall, na Real Companhia Velha, em Vila Nova de Gaia, procura contribuir para uma experiência diferenciadora, aliando ciência, história, identidade e convívio.
Quais serão os grandes destaques do programa científico?
O programa científico procurará abordar questões centrais da Ortodontia contemporânea, conciliando os princípios biológicos e clínicos fundamentais com as possibilidades proporcionadas pelas novas tecnologias.
Estarão em discussão temas relacionados com o diagnóstico e o planeamento terapêutico, a previsibilidade dos tratamentos, a biomecânica, os alinhadores, a integração dos fluxos digitais e a gestão de casos clínicos de diferentes níveis de complexidade.
Destacaria também a presença de oradores nacionais e internacionais de reconhecido mérito, bem como as sessões baseadas em casos clínicos, que permitirão aproximar os conteúdos científicos dos desafios que os profissionais encontram diariamente.
Como foi estruturado o programa científico para responder às necessidades de profissionais em diferentes fases da carreira?
Procurámos construir um programa abrangente e equilibrado. Para quem se encontra numa fase inicial da carreira, haverá conteúdos que ajudam a consolidar conhecimentos, desenvolver o raciocínio clínico e compreender os princípios que devem orientar o diagnóstico e a decisão terapêutica.
Para os profissionais mais experientes, o programa incluirá temas atuais, abordagens diferenciadas, casos complexos e momentos de discussão que permitem questionar protocolos e aprofundar estratégias clínicas.
Esta complementaridade é essencial: um congresso deve oferecer respostas, mas deve também estimular a reflexão, independentemente da experiência de cada participante.
Como foi pensada a seleção dos oradores nacionais e internacionais?
A seleção dos oradores teve como critérios fundamentais a excelência científica, a experiência clínica, a capacidade de comunicação e a relevância dos temas para a prática atual.
Procurámos reunir diferentes escolas de pensamento e perspetivas complementares, com o objetivo de promover uma discussão plural e enriquecedora. A combinação de oradores nacionais e internacionais permite-nos reconhecer a qualidade da Ortodontia desenvolvida em Portugal e, simultaneamente, trazer ao congresso experiências e tendências provenientes de outros contextos.
Mais do que reunir nomes, procurámos construir um programa coerente, no qual cada intervenção contribua para a narrativa global do congresso.
Que tendências e áreas emergentes da Ortodontia estarão em destaque durante o XXXII Congresso?
Estarão em evidência a crescente personalização dos tratamentos, a evolução dos alinhadores, os novos recursos de diagnóstico e planeamento digital, a integração de diferentes tecnologias e a procura de maior previsibilidade terapêutica.
Será igualmente importante refletir sobre a utilização criteriosa da inovação. Nem tudo o que é tecnologicamente possível representa, por si só, uma melhoria clínica. A tecnologia deve estar ao serviço do diagnóstico, da biomecânica e das necessidades individuais do paciente.
O futuro da Ortodontia dependerá, precisamente, da nossa capacidade de integrar inovação, conhecimento científico e experiência clínica.
De que forma a transformação digital está a impactar a Ortodontia e como estará refletida no programa científico?
A transformação digital está presente em praticamente todas as etapas do tratamento ortodôntico: na recolha de informação, no diagnóstico, na simulação, no planeamento, na produção de dispositivos, na monitorização e na comunicação com o paciente.
Esta evolução trouxe maior eficiência e novas possibilidades, mas também desafios. A visualização de uma simulação digital não deve ser confundida com previsibilidade biológica, e o software não substitui o conhecimento do profissional.
O programa refletirá esta realidade através da discussão das ferramentas digitais e da sua aplicabilidade clínica, mas também dos seus limites. Queremos promover uma utilização informada, crítica e responsável da tecnologia.
Qual considera ser, atualmente, o maior desafio para os ortodontistas?
Um dos maiores desafios é acompanhar uma evolução tecnológica extremamente rápida sem perder o controlo clínico do tratamento. Temos cada vez mais ferramentas, informação e soluções disponíveis, mas isso exige uma capacidade acrescida de seleção e interpretação.
É necessário distinguir inovação com verdadeiro valor clínico de tendências passageiras ou de propostas excessivamente condicionadas pelo marketing. O profissional deve continuar a dominar o diagnóstico, a biomecânica e os fundamentos biológicos, mantendo o paciente no centro de todas as decisões.
Num contexto de crescente automatização, preservar o pensamento crítico e a responsabilidade clínica é, provavelmente, um dos nossos maiores desafios.
Que oportunidades oferece este congresso aos jovens médicos dentistas e estudantes interessados na Ortodontia?
O congresso oferece aos jovens profissionais e estudantes a possibilidade de contactarem diretamente com diferentes áreas da Ortodontia e com profissionais de reconhecido mérito nacional e internacional.
É também uma oportunidade para desenvolverem o raciocínio clínico, conhecerem novas abordagens, participarem em discussões científicas e compreenderem melhor as exigências desta área. Os momentos dedicados à apresentação de trabalhos e casos clínicos permitem-lhes ainda divulgar o seu trabalho e receber contributos de colegas mais experientes.
Acima de tudo, queremos que se sintam integrados na comunidade ortodôntica e motivados a construir um percurso baseado no conhecimento, na ética e na aprendizagem contínua.
Que oportunidades de aprendizagem, partilha de experiências e networking proporciona o XXXII Congresso aos participantes?
Os congressos científicos têm uma dimensão que vai muito além das conferências. A aprendizagem acontece também nas perguntas colocadas, na discussão de um caso, na troca de experiências durante uma pausa ou no contacto com colegas que enfrentam desafios semelhantes.
O XXXII Congresso foi pensado para favorecer esses encontros, num ambiente próximo e acolhedor. As sessões científicas, a área de exposição, os momentos sociais e o jantar do congresso serão oportunidades privilegiadas para criar e reforçar relações profissionais, estabelecer colaborações e partilhar experiências.
É muitas vezes destes contactos informais que surgem novas ideias, projetos científicos e relações profissionais duradouras.
Que papel continua a desempenhar a SPO na promoção da excelência científica e no desenvolvimento da Ortodontia em Portugal?
A Sociedade Portuguesa de Ortodontia tem desempenhado, há mais de 30 anos, um papel fundamental na formação contínua, na divulgação do conhecimento científico e na aproximação entre os profissionais ligados à Ortodontia.
A SPO promove o debate, estimula a atualização e cria oportunidades de contacto com diferentes escolas e realidades clínicas. Tem também a responsabilidade de contribuir para uma prática baseada na evidência, eticamente responsável e orientada para a qualidade dos cuidados prestados aos pacientes.
Num período de mudanças tão rápidas, este papel torna-se ainda mais relevante. A SPO deve continuar a ser um espaço de referência, reflexão e união para a comunidade ortodôntica portuguesa.
Que mensagem gostaria de deixar aos colegas que ainda estão a ponderar participar no XXXII Congresso da SPO?
Gostaria de os convidar a juntarem-se a nós, de 22 a 24 de outubro, em Vila Nova de Gaia, para três dias de ciência, partilha e convívio.
Preparámos este congresso com enorme dedicação, procurando construir um programa atual, diversificado e clinicamente relevante. Será uma oportunidade para atualizar conhecimentos, confrontar diferentes perspetivas, reencontrar colegas e estabelecer novas ligações profissionais.
Acredito que todos regressarão à sua prática clínica com novas ideias, novas perguntas e uma motivação renovada. O congresso é construído para a comunidade ortodôntica e só ficará verdadeiramente completo com a presença e a participação de todos.
Enquanto Presidente, que marca pessoal gostaria de deixar nesta edição?
Gostaria que esta edição fosse recordada pela capacidade de conciliar inovação e identidade, refletindo plenamente o lema “Novos Caminhos, a Mesma Essência”.
A minha marca pessoal será, sobretudo, a de um congresso aberto, dinâmico e agregador, capaz de aproximar diferentes gerações de ortodontistas e de valorizar, simultaneamente, a evidência científica, a experiência clínica e a dimensão humana da nossa profissão.
Espero deixar um encontro que inspire os participantes, estimule a partilha e reforce o sentimento de pertença à comunidade de médicos dentistas apaixonados pela Ortodontia.
Se tivesse de resumir o XXXII Congresso da SPO numa única frase, qual seria?
O XXXII Congresso da SPO será um encontro entre a inovação e a experiência, onde exploraremos novos caminhos sem perder a essência científica, clínica e humana da Ortodontia.
Prof.ª Doutora Selma Pascoal
Presidente da Comissão Organizadora do XXXII Congresso da SPO.
XXXII Congresso da SPO
22 a 24 de outubro de 2026
Vila Nova de Gaia